Falando em lobby...a comunicação no processo de RIG

por Fabio Ventura

Jornalista. Já trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo, TV Integração, TV Tem e EPTV. Conquistou os prêmios Abag de jornalismo (3 vezes), Sebrae, Mapa e Senac.

Provavelmente já aconteceu com você durante uma conversa. Você está falando, seu amigo também. A conversa aparentemente flui, até vocês se darem conta de que cada um está tratando de um assunto diferente. Não é um diálogo e sim um monólogo alternado que, de alguma maneira, se encaixou entre uma resposta e outra.

Se já é difícil se comunicar com efetividade em uma prosa olho no olho, com um interlocutor conhecido e abordando um assunto trivial, imagine a quantidade de ruídos que surgem quando aumenta o número de interlocutores, de canais e a quantidade de informações.

Todos os dias, profissionais de Relações Institucionais e Governamentais (RIG) participam de fluxos de comunicação com potencial para impactar a vida de milhares de pessoas – toda uma categoria profissional, por exemplo. Não é por que a comunicação é feita de forma mais protocolar que os ruídos não surjam. Na verdade, eles podem até ser potencializados pela complexidade do fluxo e pela dificuldade na acomodação dos interesses envolvidos.

Por isso, comunicar-se bem na área de RIG não é um diferencial, mas uma obrigação. Para falar sobre esse ativo poderoso, conversamos com o sócio-fundador da FLAG Public Affairs Luiz Antonio Flecha de Lima. Com mais de vinte anos de experiência na área, ele sabe a importância da comunicação bem azeitada e do posicionamento pela defesa de interesses, lição que aprendeu ao longo da vida vendo a atuação do seu pai, um dos mais conhecidos diplomatas do País, o embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima. “Todo mundo defende interesses. Meu pai foi diplomata por 46 anos e dizia que não havia feito outra coisa na vida, a não ser defender os interesses do Brasil.”

Boa leitura!

1 – Como você avalia a importância da comunicação nos processos de RIG?

A gente aqui na FLAG sempre encarou o trabalho de Relações Institucionais e Governamentais como um processo de comunicação. É óbvio que é comunicação para um público específico, no poder executivo, no poder legislativo, nas academias, junto aos formadores de opinião, mas é um processo de comunicação. As empresas, ao longo do tempo, vêm se aperfeiçoando na área de RIG. Por exemplo, fazem pesquisas, baseadas em material informativo, científico. Não é só tentar convencer a pessoa. Você convence com argumentos. A comunicação é uma ferramenta para se fazer entender.

2 – Como funcionam esses fluxos de comunicação na prática?

O trabalho básico nosso é entender as necessidades dos nossos clientes e transformar essas necessidades em pontos que possam ser explanados para os formadores de opinião. Dessa forma, elaboramos documentos, papers, folhetos demonstrativos dos setores, assim por diante. São pontos importantes para o convencimento daquele formador de opinião, para ele tomar a decisão apropriada para determinador setor.

3 – Na essência, torna-se um trabalho de curadoria de informação?

Sim, a gente faz todo o levantamento das informações necessárias que precisam chegar aos formadores de políticas públicas, em conjunto com os nossos clientes, com foco no seu êxito econômico. Parte do nosso trabalho é tornar o ambiente estável para que nossos clientes possam tocar o seu dia a dia e ter o melhor resultado operacional.

4 – E como essas informações são recebidas pelos decisores?

O corpo técnico e os próprios gestores são muito qualificados na esfera federal e estadual também. Hoje, o serviço público conta com pessoas altamente qualificadas. Então, ao falar de imposto, por exemplo, você leva um estudo feito por uma dessas grandes consultorias econômicas e os agentes públicos entendem perfeitamente a linguagem e dão valor à informação recebida.

5 – E quais são os desafios na comunicação para os profissionais de RIG?

Eu acho que a grande dificuldade é levar a compreensão aos formadores de opinião de que é importante e legítimo os setores econômicos defenderem seus interesses. Muitas vezes isso acaba sendo mal visto. Todo mundo defende os interesses. Meu pai foi diplomata por 46 anos e dizia que não havia feito outra coisa na vida, a não ser defender os interesses do Brasil. A grande falha da comunicação do setor como um todo é não expressar claramente que é legítimo representar interesses de grupos econômicos, associações e entidades de classe. Mas já está ocorrendo uma grande transformação, principalmente pós Lava-Jato. A transparência que o processo de compliance trouxe para as empresas tem sido fundamental na compreensão dessa importância.

6 – Como você avalia a discussão sobre a regulamentação do profissional de RIG. Em que medida isso vai facilitar o trabalho?

A regulamentação é importante para separar o joio do trigo. Onde tem serviço regulamentado, você presta contas, aumenta a transparência. Eu tenho uma apresentação em que eu falo que o advogado envolvido com corrupção não é mais advogado, vira lobista. O médico, na mesma situação, deixa de ser chamado de médico e vira lobista. A palavra lobby ficou muito mal falada no Brasil, em parte por culpa dos processos que eram adotados, em parte por culpa da não compreensão dos formadores de opinião sobre o lobby legal.

Para mudar isso, a questão da regulamentação é fundamental, mas sem burocratização. Por exemplo, o projeto original falava que o profissional tinha que fornecer ao TCU a informação de quanto recebeu de cada cliente. Ou seja, os concorrentes vão saber quanto ele ganha? Que transparência isso traz, se a Receita Federal já sabe quanto eu recebi de cada cliente? Nos países que burocratizaram demais a prestação de contas, o número de profissionais registrados diminuiu, porque a pessoa acaba atuando sem ser registrada. Por isso, é importante que o texto traga transparência, de forma eficiente e não burocrática.


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