A estrutura estatal e os profissionais de relgov

O debate sobre a regulamentação da prática de Relações Governamentais vem recebendo cada vez mais atenção de especialistas, da mídia e das pessoas em geral. É por este motivo que cabe destacar o evento “Painel ILB: Legislativo, Democracia e Relações Governamentais” ocorrido em Brasília no dia 29 de fevereiro. Na ocasião realizou-se um debate muito proveitoso sobre o que se tem feito e proposto para estruturar a prática de Relações Governamentais sob a ótica democrática.

A verdade é que muito se tem visto e ouvido sobre indivíduos que desviados de suas funções recebem, pagam e transitam com valores de origem duvidosa ou de fontes pouco republicanas. Contudo, ressalta-se que devemos olhar também para o modo de funcionamento da estrutura estatal do país.

Hoje em dia, em muitas ocasiões, os profissionais de RelGov (também chamado pela mídia de lobistas) aparecem como uma figuras maléficas que não visam o bem comum, são contrários aos interesses gerais da população e que tem como função instigar a classe política a cometer atos ilícitos que lesam o patrimônio público.

Pois bem, felizmente não é isso que ocorre com os profissionais que trabalham com Relações Governamentais e nem é o objetivo saquear a máquina pública em benefício próprio ou de algum grupo. A importância de aprofundar o debate sobre a prática de RelGov é exatamente desmitificar esta prática e mostrar que defender projetos deve fazer parte do cotidiano democrático de um país. E mais, desde que feito de maneira clara é uma importante ferramenta para o avanço de projetos políticos.

Uma boa parte das críticas direcionadas à Relações Governamentais evidencia, na verdade, um discurso de perda da confiança nas instituições políticas brasileiras, ou seja, na estrutura estatal. A grande questão é que a população não acredita mais nas regras colocadas por estas instituições, tornando-as pouco legítimas. Muito dessa descrença e desconfiança passa pela sensação de dependência excessiva que se tem da estrutura estatal, onde ter boas relações com o governo faz com que determinados grupos tenham vantagens extras deixando, para a maioria da população, um cenário muito confuso sobre quem pode participar das negociações, bem como sobre os limites que estas negociações possuem. Contudo, isto tem mais relação com a transparência e eficácia das regras do jogo político do que, de fato, com a prática de Relações Governamentais.

O ponto é que, não são os profissionais que trabalham na arena política, mas como a arena política se estrutura através de práticas pouco racionais (processos lentos e que são excessivamente burocráticos) e instáveis (não possuem regras claras, fato que pode alterar o processo de negociação junto aos legisladores). Estas características abrem brechas perigosas aos preceitos democráticos e, quando evidenciados pela mídia, geram ainda mais descrédito entrando em um ciclo vicioso, onde regras pouco claras abrem espaço para negociações escusas que acabam por tornar as regras menos claras e assim por diante.

É muito provável que parte desta imagem pejorativa, que se tem dos profissionais de RelGov, ocorre, pois se acredita que esta relação serve como tráfico de influência nos processos políticos. Todavia, devemos ter claro que a prática de RelGov hoje é uma realidade que deve ser debatida sem pré julgamentos. Devemos compreender sua importância e sua dinâmica para que possamos utilizá-la de modo a trazer benefícios e avanços.


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