Como a política pode ser uma vantagem competitiva?

por Fabio Ventura

Jornalista. Já trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo, TV Integração, TV Tem e EPTV. Conquistou os prêmios Abag de jornalismo (3 vezes), Sebrae, Mapa e Senac.

Toda a cartilha foi cumprida. Você identificou um nicho de mercado, fez um plano de negócios, formalizou a sua empresa, montou uma equipe afiada e começou a oferecer um produto/serviço de ótima qualidade. Pouco a pouco, foi conquistando mercado e previsibilidade na operação. Levou no peito crises e reveses normais na vida de toda empreendedor. Construiu um negócio sólido – pelo menos, era o que aparentava. Seguiu todas as regras, mas, de repente, elas mudaram. A legislação sobre a sua área de atuação te derrubou. Foi como ser nocauteado por um soco sem nem ver de onde ele veio. Mas, durante a recuperação, juntando um mosaico de informações, provavelmente você percebeu que este golpe não foi assim tão imprevisível. Faltou entender a política como um elemento de vantagem competitiva.

O conceito de vantagem competitiva foi definido pelo professor da Harvard Business School Michael Porter. Segundo ele, essa vantagem não pode ser compreendida olhando a empresa como um todo, mas sim analisando atividades que a empresa executa durante todo o seu ciclo. A vantagem competitiva é obtida quando ela é difícil de ser reproduzida, sustentável, superior à dos concorrentes, entre outras qualidades. Uma grande dificuldade para obter essa vantagem é, paradoxalmente, a própria democratização da evolução tecnológica. Com a padronização de processos, obter esta vantagem competitiva é cada vez mais difícil.

Nesse sentido, as empresas precisam se diferenciar aos olhos dos stakeholders, de diferentes formas, gerando valor e otimizando todos os aspectos do seu negócio. Isso inclui o relacionamento institucional, com o contato republicano com os agentes públicos. Assim, a política se apresenta para as empresas, associações e instituições diversas como uma alternativa indispensável para mapear oportunidades e mitigar os riscos.

Excesso de regulação

Não é novidade que o Brasil é um dos países mais reguladores do mundo. Enquanto você leu este texto, é provável que o governo federal tenha editado um ato regulamentador. A média é de mais de 750 atos desse tipo por dia, ou seja, um a cada dois minutos. Não nos esqueçamos das milhares de proposições iniciadas todos os dias nas Casas Legislativas de todo o país, incluindo o Congresso. O seu negócio pode estar a mercê de uma canetada. Ignorar o processo por detrás dela e não se fazer ouvir durante a formação/consolidação/execução da decisão é um erro que pode ser fatal.

Ao calibrar o olhar para as possibilidades geradas pela política como vantagem competitiva, o primeiro passo é buscar ter ciência da pauta de discussões e da sua temperatura. Nesse sentido, é preciso monitorar os temas de interesse da sua empresa junto ao legislativo, uma tarefa quase impossível de ser feita manualmente, dado o volume de proposições, muitas delas tangenciais ao foco de interesse, mas que também podem gerar um impacto relevante.

Inteirando-se sobre os temas, chega o momento de buscar um lugar à mesa, para fazer parte das discussões, inclusive para propor novos enfoques ou pautas. Uma das formas mais eficientes de se fazer isso é disponibilizando para os decisores dados e informações sobre a área a ser afetada pela política proposta.

Em um contexto em que as mudanças tecnológicas na oferta de produtos e serviços seguem a velocidade da luz, é importante buscar atenuar os riscos para que as decisões já não nasçam caducas. Assim, a regulamentação, que já faz parte das regras do jogo de setores altamente sujeitos à intervenção dos governos, como transporte, alimentação e saúde, entre outros, conseguirá cumprir o seu papel com maior eficiência.

Instituições cidadãs

A vantagem competitiva do bom uso da política também vai ao encontro de uma tendência cada vez mais cobrada pelo mercado: o posicionamento. Para além dos interesses inerentes ao próprio contexto operacional dos seus negócios, as empresas precisam buscar uma relação construtiva com o setor público para fortalecerem os mercados e auxiliarem na formulação e proposição de políticas, muitas vezes, por meio de parcerias estratégicas.

Essa interação não significa usurpação do poder público, mas sim uma postura de colaboração para gerar processos sustentáveis no conhecido tripé econômico, social e ambiental. Por exemplo, as corporações detém um grande número de informações que podem gerar insights para os formuladores de políticas públicas. Ou seja, são dados que não devem ficar represados.

Nesse processo, a imagem da instituição junto à opinião pública se solidifica, o que pode gerar mais oportunidades, embora, se este for o único objetivo, seja grande o risco de a estratégia se esvaziar rapidamente.

Desse modo, ao se posicionarem como um player disposto ao diálogo, visando contribuir de forma coerente para o avanço e sustentabilidade dos seus mercados de atuação, as empresas vão inocular a política nos seus processos de atuação, obtendo uma vantagem competitiva de longa duração. Em um contexto de tantas mudanças e liquidez, construir este relacionamento com os decisores e conquistar o reconhecimento da opinião pública são ativos que não podem ser negligenciados.


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