Entrevista Bruno Perman, presidente do IRELGOV

Na boa prosódia da língua portuguesa, think tank soa até como um trocadilho a ser decifrado pelo interlocutor menos iniciado. Mas cada vez mais a nomenclatura em inglês vem ganhando espaço pela inexistência de um termo tupiniquim à altura. Think tank, a grosso modo, pode ser entendida como uma instituição ligada à produção de conhecimentos e ações sobre assuntos considerados estratégicos para o desenvolvimento da sociedade.

Quanto maior o grau de maturidade democrática e institucional, melhor o ambiente para a formação e consolidação de uma think tank. Por isso, o Brasil ainda não está na frente da fila, mas avança a passos cadenciados pelo conjuntura política e econômica. No País, um ótimo exemplo de instituição que cumpre bem esse papel é o Instituto de Relações Governamentais (IRELGOV).

O advogado pernambucano, Bruno Perman, de 39 anos, é o atual presidente do IRELGOV. Com experiência de quase 20 anos na área e atuação em diferentes assembleias pelo País, Bruno sabe pensar a profissão e o contexto em que ela está inserida, como o atual, pós-eleições parlamentares e entre definições no executivo. Em um ambiente complexo, com tantas variáveis, as think tanks e seus interlocutores são fundamentais para fornecer respostas e caminhos à altura da densidade dos problemas.

O IRELGOV foi fundado em 2015. A instituição, sem fins lucrativos, é mantida pelos associados, cerca de 160 pessoas físicas e 40 pessoas jurídicas comprometidas em elevar o profissionalismo e a ética na área de relações governamentais e institucionais. Os princípios são os mesmos de toda cartilha alinhada a boas práticas de compliance: legitimidade, legalidade e transparência. Para também não ficar apenas no campo etéreo das ideias, dois pilares fundamentais marcam os trabalhos e são traduzidos em ações mais práticas: reputação e educação.

Pilares

O pilar da educação abrange, para os associados, oportunidades de cursos de curta duração no Brasil e viagens ao exterior, onde é intensa a agenda acadêmica e comercial. Ano passado, uma turma foi a Bruxelas, onde visitou embaixadas, escritórios de multinacionais e de agências de fomento exterior. Em outra ocasião, também já desembarcou em Washington, viagem que deve ser repetida em breve. Para o segundo semestre de 2019, está previsto um destino que não pode mais ser ignorado: a China.

Quanto à reputação, o foco do IRELGOV está em finalizar uma grande pesquisa que vem sendo realizada desde 2016, em três fases. “A partir dessas informações, vamos fazer um plano estratégico para melhorar a reputação do profissional de relações governamentais”, explica Bruno.

Já foram entrevistados centenas de profissionais. A terceira fase da pesquisa estava prevista para este ano, mas foi adiada para 2019, em função do instável período eleitoral. “Nesta terceira fase, o questionário vai para os tomadores de decisão pública, o outro lado do balcão. Queremos saber como ele vê o profissional de RIG, como ele é abordado e como ele recebe as informações.”

Novo Parlamento

Para os profissionais que atuam no parlamento, a composição das casas afeta diretamente a dinâmica de trabalho. Sobre os resultados das eleições legislativas, Bruno vê uma guinadada à direita, o que deve influenciar a agenda do Congresso. Citando um estudo feito pelo Observatório das Eleições, da Unicamp, e divulgado pela GloboNews, ele observa que o número de deputados eleitos alinhados ideologicamente à direita subiu de 238 na eleição de 2014 para 301 agora. Outro ponto que também chamou a atenção foi a onda de parlamentares eleitos ligados ao judiciário e à segurança pública. “Será um congresso mais conservador.”

Provavelmente, mais conservador e, com certeza, menos experiente. O alto índice de renovação das casas, a ascensão de novas figuras políticas e de novas forças, como o PSL, que elegeu 52 deputados e se tornou a segunda maior bancada da câmara, também vão influenciar o trabalho. “Muitos deputados e senadores vão atuar no Congresso pela primeira vez. Muitos não tiveram nenhuma experiência legislativa”, ressalta Bruno.

E esse Congresso menos experiente se torna um desafio maior para o profissional de RIG?

“Sem dúvida, porque você vai ter que dialogar mais com parlamentares e equipes que estão chegando.” Para Bruno, esse ponto pode ser desanuviado pelo corpo concursado da Câmara e do Senado. “São profissionais formidáveis, sem dúvida.”

Quanto à agenda, ele prevê que a próxima legislatura, embora inexperiente, vai ter trabalho para experts. “Eles vão enfrentar uma pauta delicadíssima, de reformas importantes que estão sendo represadas há três, quatro anos por conta da crise política. É uma grande oportunidade de discutir esses temas, além de marcos regulatórios importantes.” Para este horizonte tão complexo e desafiador, fábrica de ideias como o IRELGOV são muito bem-vindos. Mais do que isso, são necessários.


Fabio Ventura

Fabio Ventura

Jornalista. Já trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo, TV Integração, TV Tem e EPTV. Conquistou os prêmios Abag de jornalismo (3 vezes), Sebrae, Mapa e Senac.