Entrevista com Guilherme Cunha, presidente da Abrig

A Abrig vai na contramão da maioria das associações profissionais. Em vez do discurso focado no umbigo dos que pagam a contribuição, a agenda da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais foge do corporativismo. Temas como carteirinhas ou cursos obrigatórios para desempenhar a atividade passam longe do debate. A agenda está focada em pensar o Brasil. É bem mais ampla - e até mesmo profética. Poucos dias antes da greve dos caminhoneiros, em maio deste ano, a entidade realizou a Conferência Internacional de Logística e Inovação e antecipou problemas que foram escancarados durante a paralisação.

No último dia 25, foi realizada uma nova conferência, agora sobre Segurança Jurídica e Investimento Estrangeiro, outra tema bastante pertinente para o momento em que vive o País. Sobre a agenda da entidade e sobre o ambiente de eleições, o presidente da Abrig, Guilherme Cunha Costa, conversou com o Blog Tudo é Política.

Aos 48 anos, o advogado brasiliense atua como profissional de Relações Governamentais e Institucionais (RIG) há 26 anos. Integrante da Abrig desde a sua fundação em 2007, ele dirige uma organização que reúne profissionais com alto grau de qualificação. Segundo um balanço de 2016, 64% dos associados tinham MBA ou pós-graduação. Para fazer parte, é necessário ser avaliado por um comitê de avaliação, que faz a avaliação dos pretendentes. Além de profissionais da área, professores e estudantes também são admitidos.

No dia da entrevista, a Abrig contava com exatos 513 associados, mesmo número de deputados no Congresso Nacional. E o que isso significa? Nada, apenas uma coincidência.

Dentro da neutralidade que marca uma instituição como a Abrig, como a instituição está vendo o atual processo eleitoral, na esfera da agenda proposta?

Nós teremos uma perspectiva de melhora a partir do ano que vem. Todos os candidatos falam da necessidade de fazer uma reforma de estado, da reforma da previdência e falam de uma reforma política. Eu acredito muito que, independentemente de quem seja o eleito, nós teremos um País cutucando as feridas e mexendo inevitavelmente onde a gente tem que mexer.

Quais são alguns temas que você vê como necessários para a próxima legislatura?

Diferentemente de muitas categorias, a gente não tem um discurso corporativista. A quantidade de leis que são publicadas diariamente no País geram uma enorme insegurança jurídica. Todo dia, o Diário Oficial traz 740 normas. Isso seria bom para o profissional de RIG, mas é muito ruim para o País. Isso tem que muito bem observado pelas próximas autoridades do Congresso Nacional e pelo poder Executivo. A gente não precisa disso tudo. A gente precisa construir marcos regulatórios de qualidade.

Entre os pontos levantados pela Abrig estão temas da agenda nacional como, por exemplo, segurança jurídica e investimento estrangeiro (foco do II Evento Internacional da Abrig, realizado no último dia 25). Qual a importância dessa discussão?

O investimento estrangeiro é mais seletivo do que o nacional. Se você tem um ambiente mais organizado pra o estrangeiro, você tem também para o investidor nacional. Na minha visão, os players (internos) estão esgotados por uma série de fatores como endividamento, complicações, quatro anos de uma severa crise. Então, a gente precisa de capital estrangeiro para tracionar a economia para os nossos players. Os empreendedores precisam tomar fôlego para fazer o Brasil voltar a crescer.

O evento sobre logística antecipou vários problemas. Logo em seguida, houve a greve dos caminhoneiros?

A Abrig desenvolveu vários produtos: Café com autoridade, Abrig Debate, a revista, a TV Abrig, as conferências. Todas essas atividades estão envolvidas em quatro pilares: capacitação, regulamentação, informação e relacionamento. A conferência é hoje um produto mais significativo, porque ela é um debate público transversal, onde a gente sai com propostas concretas. É um debate efetivo junto com o país. O debate sobre logística foi um sucesso. A gente já estava percebendo que era necessário fazer há algum tempo. E isso ficou comprovado, porque nove dias depois, estourou a greve.

Como manter a participação no debate com neutralidade, que é um pressuposto de uma organização como a Abrig?

Nós somos 513 associados. Se não houver neutralidade, os próprios associados fazem com que a Abrig volte ao rumo, pela diversidade enorme de cabeças que pensam diferente, sempre com vontade de contribuir para o País. O que a gente defende é um debate para que se busque alternativas. A gente efetivamente não toma partidos. O que a gente não abre mão e toma partido sim, e isso está no nosso DNA, é sobre a questão da regulamentação (da profissão de RIG). A gente pode sugerir para as autoridades como deve ser o debate sobre essa questão. E a gente percebe que há um entendimento cada vez maior dos veículos de comunicação, da sociedade em geral, sobre a importância da regulamentação.

Sobre a regulamentação, por que ela se faz tão necessária?

A regulamentação está presente em diversos países, todos mais fortes institucionalmente do que o Brasil. Tanto a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) quanto Transparência Internacional são favoráveis à regulamentação. Se temos, todos os dias, 740 normas no Diário Oficial, como que não tem uma para regular uma atividade que é realizada há décadas no Brasil? Queremos desenvolver a nossa atividade com legalidade, ética, bom senso. Como validação da atividade, haveria a possibilidade efetivamente de atuação de pessoas reconhecidas e credenciadas, em um ambiente transparente. Hoje, dentre os nossos 513 associados, não temos nenhum investigado. Queremos transparência, não queremos ficar na sombra.


Fabio Ventura

Fabio Ventura

Jornalista. Já trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo, TV Integração, TV Tem e EPTV. Conquistou os prêmios Abag de jornalismo (3 vezes), Sebrae, Mapa e Senac.

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