Lobby social direto dos babaçuais

por Fabio Ventura

Jornalista. Já trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo, TV Integração, TV Tem e EPTV. Conquistou os prêmios Abag de jornalismo (3 vezes), Sebrae, Mapa e Senac.


Aos 36 anos, Francisca Nascimento carrega quase três décadas exercendo o ofício que aprendeu em casa. Ela começou a quebrar coco aos sete anos, nas proximidades onde hoje está São João do Arraial, município de pouco mais de sete mil habitantes, na região norte do Piauí. Francisca é uma das principais lideranças de um movimento que reúne aproximadamente 300 mil mulheres nos estados do Piauí, Pará, Tocantins e Maranhão.

O Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB) transcendeu os limites dos babaçuais e se tornou um exemplo de articulação para associações de todo o País. O bom trabalho é reconhecido e apoiado por instituições de renome internacional, como o Fundo Social Europeu, Actionaid, FordFoundation, Fundo Amazônia e Funbio. Em termos de articulação e posicionamento, o MIQCB poderia se equiparar a algumas das mais sólidas entidades de classe de todo o País.

O movimento surgiu em 1991, representando e defendendo os interesses sociais, políticos e econômicos de centenas de milhares de mulheres, que passaram a ser vistas e reconhecidas. Termos caros hoje em dia como sustentabilidade, economia solidária, autonomia e empoderamento feminino foram sendo traduzidos, ao longo dos anos, em ações voltadas para a ascensão dos direitos das quebradeiras de coco agricultoras, que foram ganhando força como cidadãs protagonistas da própria história.

Como toda instituição articulada, o MIQCB tem estrutura, planejamento e agenda. Depois de 10 anos como coordenadora-geral, Francisca agora está no processo de transição, para passar o cargo à frente. A essência do trabalho que faz é muito parecido com a de milhares de profissionais engravatados de Brasília ou das principais capitais do País. Casada e mãe de dois filhos, Francisca não está familiarizada com o termo, mas exerce com destreza o papel de profissional de Relações Institucionais e Governamentais (RIG).

“Eu aprendi muito com o Movimento. Aprendi sobre preservação e a trabalhar coletivamente e isso fez muito diferença para termos mais voz”, explica Francisca. A voz do Movimento ecoa em gabinetes do executivo e de casas legislativas. Juntas, elas se movimentaram rumo a conquistas importantes. Ao longo do tempo, reuniões com o Ministério do Meio Ambiente, com as secretarias estaduais passaram a fazer parte da rotina, muitas vezes sem o intermédio de assessores. O grupo já conversou diretamente com, por exemplo, deputados, senadores, ex-ministros e até ex-presidentes.

Agenda

As articulações se traduziram em conquistas práticas. O Movimento ajudou a costurar políticas públicas como a inclusão dos produtos do coco babaçu no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e nos programas de Compra Direta da Agricultura Familiar. A conquista do preço mínimo para o produto também passou pelo grupo.

Na agenda do Movimento, o termo Planejamento Estratégico perde a sonoridade de jargão corporativo pedante e ganha naturalidade, ainda mais com o sotaque melodioso de Francisca. O MIQCB também está fazendo o seu Planejamento Estratégico neste momento e ele inclui, entre os pontos, reuniões com os representantes dos atuais governos dos estados.

Quanto ao conteúdo programático das reivindicações, os temas vão além do ofício desempenhado pelas mulheres e incluem temas da agenda nacional como o combate a violência contra a mulher e o posicionamento contra as mudanças na Previdência Social.

“Trabalhando coletivamente, aprendemos a lutar pelos nossos direitos. Também estamos em contato com outras organizações pelo País, para fortalecermos o diálogo com associações indígenas, extrativistas e de apoio às mulheres”, conta Francisca.

Com quase três décadas de atuação, o Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu é contemporâneo à história de muitas mulheres que cresceram aprendendo na prática a importância da mobilização e da articulação. Como resultado, ganharam legitimidade, o melhor convite para se sentar à mesa dos decisores.

As demandas variam ao longo do tempo, conforme o avanço dos papéis ocupados por cada uma dentro de casa ou da comunidade. Em uma região marcada pela transição entre os principais biomas brasileiros (Caatinga, Floresta Amazônica e Cerrado), as mulheres da Mata dos Cocais sabem que o melhor caminho é sempre à frente. Sempre em movimento.


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