Quando o risco político custa dinheiro

Arriscar-se é, por si só, temeroso. O receio está sempre presente num processo de decisão que envolve risco, seja ele político, econômico, de crédito ou até de desastres naturais. Assim como na guerra. O risco político, entretanto, é um dos mais difíceis de se prever ou quantificar.

Isso porque ele se refere à possibilidade de o governo de um país ou estado tomar medidas adversas aos investimentos realizados. Em casos assim, uma determinada ação política pode impactar diretamente a economia, os mercados e o seu negócio.

E se a empresa não tiver uma forte estratégia de gestão de riscos, que funcione como uma barreira de proteção, os soldados da iminente guerra podem surpreender. E o que era uma ameaça, torna-se concreto, gerando um custo alto.

A amplitude do risco político vai para além do nosso próprio país. Quando um governo altera uma regulamentação, pode afetar muitos negócios estrangeiros. A mudança de uma tributação é outro exemplo de uma ação governamental que interfere nos negócios.

E o conceito inclui, ainda, riscos mais esporádicos e significativos como aqueles de desapropriação, brechas de contrato, conflito interno, ativismo social, desordem pública por inépcia governamental e, o que preocupa demasiadamente no Brasil, a corrupção.

O risco político pode impactar materialmente as organizações de inúmeras maneiras, atingindo as áreas de vendas, produção e operações, pesquisa e desenvolvimento, segurança, finanças, conformidade regulatória, governança e até reputação.

Resumidamente, riscos políticos surgem quando pontos de interrogação sobre a estabilidade do governo ou instituições têm consequências econômicas para o mercado e seus negócios.

E seja influenciando diretamente sua área de vendas, ou a imagem de sua empresa, a consequência será a mesma: vai ter um custo. A falta de estratégia pode resultar em um preço bastante alto.

Direto no bolso

As questões que envolvem o risco político podem impactar materialmente as organizações de inúmeras maneiras. Uma pesquisa avaliou mais de 300 artigos acadêmicos publicados desde 2000, documentando a relação entre risco político e elementos de impacto corporativo.

Realizada pelo EY Geostrategic Business Group, em parceria com a Wharton School, escola superior de administração norte-americana vinculada à Universidade da Pensilvânia, a pesquisa revela as principais áreas em que o risco político custa dinheiro.

Segundo o estudo, o impacto do risco político pode ser significativo em várias áreas: vendas, produção e operações, pesquisa e desenvolvimento, segurança, finanças, conformidade regulatória, governança e reputação.

Redução de vendas e receitas

Uma série de casos ilustram as preferências do consumidor impulsionadas pelo sentimento nacionalista, política governamental (por exemplo, tarifas, cotas ou regulamentação), levando à perda direta de vendas.

As ações da sociedade civil contra empresas ou produtos específicos impactam negativamente as vendas e as receitas.

Por exemplo, o estudo apontou que a Guerra do Iraque impactou negativamente as vendas de produtos americanos nos países árabes, deixando o crescimento das vendas nos EUA aquém da concorrência externa em 21,2% em 2002 e 2003.

Para a diretora de estratégia de crédito e pesquisa da Moody’s, Anne Van Praagh, desde 2013 o risco político no Brasil vem aumentando consideravelmente, ao lado da Turquia e Rússia.

No ano passado, Anne participou de uma coletiva de imprensa na qual afirmou que o risco político pode afetar preços de ativos e sentimentos, com uma perda de confiança que levaria a uma correção do preço dos ativos ou a condições financeiras piores.

Para ela, no caso brasileiro, a corrupção e a insatisfação popular com os escândalos ocorridos contribuíram para o aumento do risco político.

Área de produção e operações

O risco político pode gerar impacto também nas fusões e aquisições (M&A). A pesquisa da Wharton School cita como exemplo os conflitos diplomáticos, que podem aumentar os custos dos negócios. As operações de M&A são mais prováveis ​​de serem concluídas em países com instituições políticas mais fortes

Segundo o estudo, a eclosão de conflitos violentos perto de uma subsidiária aumenta a probabilidade de desinvestimento em 52%.

Pesquisa e desenvolvimento

A pesquisa apontou que o risco político aumenta os custos de P&D e pode resultar em perda de participação de mercado. O impacto pode ser sentido nos crescentes custos da atividade e até no roubo de propriedade intelectual.

Em países com altos níveis de risco político, as empresas tiveram capital intelectual transferido à força e potencialmente usado em produtos concorrentes. As empresas líderes tecnologicamente eram, segundo o estudo, oito vezes mais sensíveis ao risco político do que suas concorrentes defasadas.

Segurança

Não é de se estranhar que o risco político tenha impacto no Investimento Estrangeiro Direto (IED) e na capitalização de mercado. O estudo encontrou evidências de como as empresas que enfrentam riscos políticos devem encarar as ameaças significativas à segurança de seus funcionários e equipamentos físicos.

A violência de atores internacionais não estatais voltados para empresas globais tem sido uma ameaça material crescente e pouco estudada e serve como um impedimento para o investimento direto estrangeiro.

Verificou-se que as interrupções na cadeia de suprimentos como resultado de incidentes terroristas tiveram uma reação negativa do mercado de ações igual a 9% da capitalização bolsista.

Outros setores

O estudo aponta ainda o custo do risco político nas áreas de Finanças, Governança Corporativa, com questionamento da transparência, e na Reputação da empresa, com dano, inclusive, à licença social para operar.

Ou seja, se a influência do risco político for considerada em toda a organização, seu impacto cumulativo será muito maior. Dessa forma, é reforçada a importância de um gerenciamento estratégico para que as empresas possam proteger valor e aumentar as oportunidades de crescimento.


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