Como analisar a transformação do cenário de riscos políticos

A transformação dos cenários é antiga. Luís de Camões deixou registrado em um de seus famosos sonetos escritos no século XVI: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança; Todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades.”

O autor de uma das obras mais importantes da Literatura Portuguesa [Os Lusíadas] tinha razão. E a empresa Shell já sabia disso desde a década de 1970. O clássico exemplo de seu posicionamento ao longo da Guerra Fria marcou o quanto foi importante antecipar-se aos possíveis finais para esse período histórico de disputas estratégicas e conflitos indiretos entre os Estados Unidos e a União Soviética.

A história foi relembrada pelo cientista político da Empower Consultoria e professor do MBA de Relações Governamentais da FGV, Rogério Schmitt. “Esse é um caso que merece ser mencionado porque reforça que, ao analisar um cenário, não se deve levar em conta se ele é provável ou improvável, mas sim, se ele é possível ou impossível”, afirmou.

O clássico case de análise de risco político

A Guerra Fria teve início logo depois da Segunda Guerra Mundial (1945) e culminou com a extinção da União Soviética, em 1991. A disputa da hegemonia política, econômica e militar no mundo parecia não ter fim.

Mas a Shell considerou essa possibilidade. E foi uma das empresas pioneiras ao usar uma ferramenta de análise de risco político, hoje conhecida como análise de cenários prospectivos.

“Eles fizeram um planejamento estratégico daquele contexto da Guerra Fria, analisando o que poderia ocorrer entre Estados Unidos e União Soviética, e começaram a pensar em como seria o mercado de petróleo se a União Soviética não existisse mais, se acabasse o comunismo na Rússia”, relatou Schmitt.

Em princípio, não foi tão simples assim. Houve resistência na equipe. Muitos achavam que isso nunca ocorreria e defendiam que os cenários desenhados tinham que partir da premissa de que a Guerra Fria seria contínua. Afinal, não deveriam considerar um cenário que mais se parecia com uma ficção científica.

Contudo, por outro lado, havia uma convicção de que, embora a probabilidade fosse pequena, ela existia. Então decidiram fazer um planejamento considerando o fim do comunismo na União Soviética. Analisaram, por exemplo, o impacto que poderia gerar no mercado de petróleo. E, com isso, identificaram fatores que deveriam ser monitorados para antecipar esse cenário.

“Mesmo quando o cenário parece improvável, ele pode ser logicamente possível. Diante disso, é preciso identificar os fatores a serem monitorados e estabelecer uma direção para a empresa, caso o cenário seja consolidado”, explicou o cientista político.

O fim da história

Bem, todos sabemos o que ocorreu nas décadas seguintes quando acabou o comunismo na União Soviética. A Shell era uma das raras empresas do setor de petróleo que estavam preparadas para se posicionar no setor de energia dentro desse contexto.

“Esse, para nós, é um exemplo clássico de análise de risco político mostrando como o fim de um regime político autoritário poderia impactar uma empresa que atua no mercado de petróleo”, arrematou Schmitt.

Oportunidades na crise

Uma análise de risco político bem feita permite que a empresa antecipe diversos desdobramentos e se prepare para diferentes cenários. Vale lembrar que o risco também pode ser entendido como sinônimo de oportunidade, já que, ao analisar os cenários possíveis, a empresa pode encontrar novos caminhos para trilhar.

“Em todas as turmas do MBA provocamos exatamente esse debate. Isso porque, normalmente, as pessoas tendem a pensar em risco como algo negativo, mas ele pode funcionar como oportunidade de crescimento, de um reposicionamento da empresa, ou mostrar um novo mercado. Claro, é importante que não sejamos muito românticos, o risco pode sim ser uma ameaça. Mas há que se considerar todas as possibilidades,”, disse Schmitt, que ministra justamente a disciplina de “Análise de Risco e Cenários”.

Análise quantitativa X qualitativa

O cientista político destaca que, em geral, quando se fala em cenários, existe um viés de análise econômica muito forte. Diante de três cenários – um negativo, um positivo e um neutro – por exemplo, a análise econômica atribui uma probabilidade para cada um deles, indicando o mais provável.

“Normalmente, quando um economista faz análise de cenário, ele considera as modelos econométricos a partir de indicadores quantitativos para projetar o futuro. Considerando a parte econômica, tudo em ordem. A questão é que a ferramenta de análise de cenário não é apenas quantitativa”, ressalta.

Para falar em análises de cenários nesse enfoque mais empresarial de risco, segundo ele, é preciso pensar numa ferramenta qualitativa. E considerar que quando desenhamos os cenários, não temos como saber qual deles vai acontecer.

“A análise de cenário tem que identificar os vários futuros possíveis, independentemente da probabilidade de cada um. O futuro possível é aquele que logicamente pode acontecer. É como em uma partida de futebol. Não temos como saber o resultado, mas podemos nos preparar para cada resultado possível, seja ele positivo ou negativo. É isso que a análise de risco e de cenários propicia. E é esse o caminho que pode fazer com que a empresa ganhe agilidade quando o cenário efetivamente se consolidar.”


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