Gestão de Risco: o que sua empresa precisa saber para 2020

Os sinais de recuperação da atividade econômica brasileira e o otimismo dos bancos e agências de classificação de risco em relação ao Brasil dominaram os veículos de comunicação no fim de 2019.

Um relatório da UBS aponta que os investidores se sentem muito mais confiantes sobre as profundas mudanças que avistam no horizonte. Contudo, eles também veem razões para ser cautelosos neste ano novo.

A análise do banco de investimentos mostra que após dois anos de recessão (2015-2016) e os três seguintes com crescimento perto de 1%, as recentes reformas e os índices macroeconômicos apontando baixa inflação estão tornando, aos poucos, o país mais propício para uma expansão do PIB (Produto Interno Bruto) em 2020, com expectativa de aumento de 2,5% por dois anos seguidos.

No entanto, o risco político é uma variável que vem ganhando importância crescente nos diagnósticos de investimento das grandes corporações multinacionais, principalmente nos últimos dez anos.

Com a percepção das empresas de que a política tem competências econômicas que podem impactar – positiva ou negativamente – os negócios, há outras variáveis que são levadas em consideração e podem refrear tanto os investimentos, quanto os direcionamentos políticos da empresa.

A ação dos governos, dos órgãos regulatórios e até do cidadão comum, hoje com livre acesso à internet e a tantos outros meios de mobilização, pode influenciar nos negócios. E, portanto, são pontos de atenção.

Mudança de paradigma

A mudança de paradigma se deu no momento em que o risco político deixou de entrar em um pacote de um risco geral. Isso ocorria quando não existiam ferramentas adequadas de análises de risco político, e toda observação era dominada por métodos econômicos.

Hoje o cenário é mais amplo. Se de um lado bancos e agências de classificação de risco percebem as reformas econômicas dos últimos três anos como possibilidades de crescimento para 2020, de outro, não se pode deixar de lado os riscos políticos, como a guerra comercial entre outros países e a possibilidade de instabilidade, além das eleições municipais no Brasil.

Sim, sabemos que a menina dos olhos da análise de risco político é sempre a eleição nacional. Ali conhecemos os responsáveis por encabeçar mudanças que interferem diretamente nos negócios das empresas.

E sabemos também que a eleição municipal não tem a mesma repercussão e nem é acompanhada de forma tão detalhada ou profunda como ocorre com as eleições gerais. Isso não significa, no entanto, que ela não possa exercer algum impacto, alguma influência.

Primeiro porque, de alguma maneira, as eleições municipais são um preparo para a eleição de 2022, um esquenta para os partidos.

Segundo porque há empresas que atuam em diversos municípios e podem ser influenciadas por decisões locais.

E terceiro, mas de maior relevância, porque com as eleições municipais, a agenda de reformas pode ser atravancada.

Habilidades em campo

Nessas horas entram em campo as habilidades do profissional de RIG (Relações Institucionais e Governamentais), que precisa ter uma boa formação em análise política, um bom conhecimento dos Poderes Executivo e Legislativo e, especialmente, ser capaz de ir além do senso comum.

Tão importante quanto, nesse momento é preciso ser capaz de interpretar as ferramentas de análise de risco político. A ferramenta de análise de cenários prospectivos, a aplicação do Método Delphi, enfim, há que se considerar inúmeras variáveis para lidar com um cenário tão movimentado.

Bem, sem contar o óbvio. Conhecer a legislação do setor no qual a empresa está inserida é fundamental. E se for um setor regulado, é preciso também dominar a parte regulatória. De fato, não é algo que se possa dominar rapidamente, é um investimento de tempo longo de qualificação, que requer leituras e atualização. Afinal, não dá para correr o risco de deixar a empresa infringir o sistema de compliance.

Sinais de alerta

E falando em atualização, vale ressaltar aqui os principais pontos que têm deixado até os investidores mais otimistas em alerta.

A análise de riscos inclui justamente a consideração de cenários. Pois bem, se a taxa de desemprego não ceder conforme esperado, é possível haver um aumento da agitação social no Brasil. E há que se considerar a possibilidade de contágio de outras manifestações na América do Sul.

Lembremos, 2020 é ano de eleições municipais. Então, caso essa agitação ocorra, o Congresso pode propor medidas mais populistas para contornar a situação em ano eleitoral.

Outro indicativo de risco político para 2020 é o fato de que a agenda das reformas, tão almejadas há tempos, caminha em meio a mudanças no plano político: a saída de Jair Bolsonaro, do PSL, a criação de uma nova legenda, além da acentuada polarização política do País.

E enquanto a atenção é mantida nas decisões que o STF (Supremo Tribunal Federal) pode tomar em relação à corrupção, é preciso pegar carona em um drone para ampliar o olhar e perceber como a guerra comercial entre a China e os Estados Unidos podem afetar os negócios. Seria possível uma redução do crescimento econômico dos emergentes e dos preços de commodities, impactando as exportações brasileiras? Sim. Então é um ponto a ser mantido no radar.

Por fim, mas não menos importante temos o cenário político externo. Na América Latina os eleitos do último pleito colocam em marcha suas agendas que em alguns países, como, por exemplo, a Argentina, não é tão convergente com a agenda colocada pelo governo brasileiro. A depender de como a situação for conduzida pode significar um balde de água fria em um dos nossos maiores parceiros comerciais. Ainda olhando para nossa vizinhança, temos as instabilidades políticas na Bolívia e na Venezuela que não são tão recentes, mas por conta da temperatura morna dificulta a análise para entendermos se as próximas etapas serão mais ou menos agitadas. No mundo o avanço do Brexit é um ponto de atenção, bem como o aumento da tensão no Irã.

O mapa de risco

Talvez as empresas nunca tenham enfrentado tantos desafios como atualmente. Desde economias emergentes até as economias mais estabelecidas, empresas e comércio são cada vez mais suscetíveis às incertezas; os riscos políticos representam uma ameaça aos seus interesses comerciais.

O Mapa de Risco Político traçado pela Marsh apontou que a eleição de Jair Bolsonaro fez fervilhar muitas decisões. A luta para realizar reformas significativas o suficiente para satisfazer as expectativas do mercado continua.

Enquanto isso, as preocupações com as percepções autoritárias dele podem levar a um maior descontentamento do público, se ele não impulsionar definitivamente a economia ou reduzir a violência.

Uma análise de risco político para 2020 deve considerar todas essas variáveis (e estar de olho nas que surgirem) para que se possa antecipar e se preparar para diferentes desdobramentos.

O futuro, por definição, é desconhecido. Ainda não se sabe quem vai ganhar a próxima eleição ou se determinado projeto será aprovado ou não. Contudo, a análise de risco permite justamente identificar os sinais que sugerem este ou aquele caminho para que a empresa possa se preparar para diferentes futuros possíveis.


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