Os riscos do descrédito na política



Por: Denilde Holzhacker

A polêmica, nas últimas semanas, sobre a reforma política aprovada no dia 09 de agosto na Comissão Especial da Câmara dos Deputados e a divulgação de pesquisas de opinião que mostram o aumento do desgaste da imagem dos políticos entre a população brasileira ampliam as preocupações quanto aos riscos do descrédito na política para o sistema democrático brasileiro.

É importante ressaltar que a desconfiança com relação ao mundo da política é um fenômeno mundial que coloca em risco a legitimidade dos sistemas políticos nas democracias contemporâneas. Pesquisas realizadas nos países da OCDE indicam, por exemplo, a queda no envolvimento dos eleitores na atividade partidária e nos processos políticos. De maneira geral, os eleitores não percebem seus interesses e valores refletidos no debate político tradicional e, com isso, passam a buscar outras formas de atuação política. A baixa participação política, o crescente distanciamento entre o mundo político e população, além da falta de transparência na gestão dos recursos públicos expõem alguns dos elementos desse processo. A desconfiança do cidadão quanto à ação dos políticos não está mais restrita a alguns poucos, mas atinge, cada vez mais, a sociedade como um todo.

Os sinais de desgaste dos governos Trump e Macron

As eleições nos Estados Unidos e na França, por exemplo, evidenciaram as insatisfações como a postura dos partidos tradicionais e a busca de renovação na política. Nos Estados Unidos, a vitória de Donald Trump mostrou as fissuras e a polarização da sociedade norte-americana e, os seus primeiros meses de governo, revelam os embates entre seus partidários e os políticos tradicionais, tanto contra políticos democratas quanto do seu partido republicano. Já no caso francês, o presidente Emmanuel Macron tem tido dificuldades em conciliar a ambiciosa agenda doméstica, especialmente na área econômica, com os anseios da população francesa.

Trump e Macron possuem posições políticas distintas e defendem modelos econômicos e sociais diferentes, mas foram eleitos com a expectativa de alteração na forma de condução das políticas nos seus países. Eles são exemplos de que, de um lado, os eleitores não esperam apenas uma mudança de discurso, mas sim a implementação de novas práticas políticas que resolvam os problemas centrais que atingem seus cotidianos, como a criação de novas oportunidades de emprego. Por outro lado, nos dois casos, a necessidade de trafegar pelo mundo da política tradicional é importante para a implementação da sua agenda política. Assim, as expectativas daqueles que pregam pelo rompimento com a forma de ação da política tradicional não podem desconsiderar a necessidade de conviver e negociar com os atores tradicionais na implementação de políticas públicas. A falta de coesão entre as lideranças aumenta os riscos de bloqueio da agenda, caso de Trump na questão da política de saúde, por exemplo, ou do desgaste da imagem junto à população, como nos casos de Trump e Macron.

De acordo com site FiveThirtyEight, Trump apresenta uma taxa média de aprovação de 37,4% frente desaprovação de 56,6%, sendo um dos presidentes em início de mandato com menor popularidade. O governo Macron também apresentou um declínio na aprovação, nos 100 primeiros dias. Na pesquisa realizada pelo YouGov, o presidente francês perdeu 7% de apoio com relação pesquisa anterior, com 36% de aprovação. Em geral, a popularidade dos presidentes diminui ao longo do governo, mas os dois presidentes mostram índices baixos para já os primeiros meses de governo.

A baixa popularidade atual não significa que eles não conseguirão melhorar suas performances no futuro, mas os dados expõem a dificuldade para a implementação dos seus programas eleitorais e o atendimento das demandas da sociedade. Assim, um dos pontos que levam os eleitores em apoiar candidatos fora do campo tradicional, resultado da insatisfação com a representação política, não resulta em um apoio incondicional a estes novos líderes, bem como não se concretiza a expectativa de resultados imediatos na solução de todos os problemas que atingem a sociedade.

Eleições em 2018 e as expectativas dos eleitores

No caso brasileiro, a crise política-institucional brasileira, as investigações dos casos de corrupção envolvendo um grande número de políticos e as insatisfações com o Governo Temer, com índice de aprovação de 5%, agravam o sentimento da população contra os políticos e a política de maneira geral. Os resultados da pesquisa da Ipsos, realizada em julho de 2017, mostravam que 94% dos entrevistados consideravam que os políticos não representam a sociedade e 86% não confiam nos políticos em que já votou. O cenário eleitoral em 2018, como visto em outros países, será influenciado pela visão negativa que os acontecimentos políticos despertam na população brasileira. De um lado, poderemos ter um aumento da abstenção eleitoral ou voto de protesto. E, de outro lado, valorizar os candidatos que mostram a não ligação com a política brasileira. Como na eleição municipal de 2016 poderemos ter o surgimento de candidaturas dissociadas da política partidária.

Até o momento, os políticos brasileiros parecem não ter compreendido as implicações das insatisfações da população. As mudanças das regras eleitorais poderão impedir o surgimento de um candidato outsider, mas não criam as condições para se estabelecer a ligação entre representantes e representados. Além disso, a pesquisa da Ipso revela que a população busca o envolvimento político para além dos partidos: para 88% dos entrevistados a sociedade brasileira deveria se unir por causas e não por partido A ou B e 84% concordam que brigar por partido A ou B impede a discussão sobre os problemas reais do país. O envolvimento do cidadão é um caminho para a superação da crise, no entanto, a falta de mecanismos e a baixa cultura cívica no Brasil são fatores que limitam uma estratégia neste sentido.

De maneira geral, no Brasil e no mundo, o descrédito na política pode ser superado com a construção de mecanismos que promovam o diálogo aberto com a sociedade. A ampliação dos canais de participação institucional deveria ser uma ação a ser perseguida por políticos e partidos, assim, fortalecendo os instrumentos institucionais democráticos. Se não tivermos uma mudança na postura dos políticos, partidos e toda a sociedade, o maior distanciamento da política colocará riscos não somente para os resultados em 2018, mas também para o sistema político pós-2018.

Post originalmente publicado no Blog Pensando Política (Infomoney)


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