A trajetória de uma profissional apaixonada por RIG

por Fabio Ventura

Jornalista. Já trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo, TV Integração, TV Tem e EPTV. Conquistou os prêmios Abag de jornalismo (3 vezes), Sebrae, Mapa e Senac.

Há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de colher o que se plantou. A área de Relações Institucionais e Governamentais (RIG) já tem colhido os frutos desse cultivo intenso, que enfrentou portas fechadas, terra seca e até falta de sementes sadias.

Com a chegada da área de Compliance nas empresas multinacionais, iniciou-se uma significativa mudança, tanto em relação ao perfil e papel dos profissionais que atuam no mercado, quanto em relação à importância da área internamente nas corporações.

Parte desse processo de transformação, Helga Paula Franco, gerente Executiva de Assuntos Institucionais e Relações Governamentais da Nestlé, também colhe os louros de seu trabalho.

O nome dela está na lista dos 20 profissionais mais admirados do mercado brasileiro, publicados no Anuário ORIGEM, o primeiro catálogo de RIG do Brasil, que reúne as principais lideranças do mercado e traz um panorama profissional da área no Brasil.

Helga foi indicada pelos próprios colegas da área de RIG, fato que está em destaque na publicação: “É uma prova de que o seu trabalho está sendo reconhecido além dos muros da sua organização e impactando positivamente a evolução do mercado de Relações Institucionais e Governamentais no Brasil”.

Trajetória

Filha de funcionário público, Helga cresceu em uma casa onde a política sempre foi muito presente. Ainda menina, já demonstrava interesse por tudo que envolvesse representatividade. “Sempre fui fã de democracia, de ouvir e ser ouvida. Acredito que essa seja a única forma que temos para construir de verdade o que queremos”, justificou.

Formada em Direito e Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB), Helga tem especializações em Direito Público e Administração Pública. Não precisou muito tempo de atuação em um escritório de advocacia para perceber que aquilo não era o que tocava seu coração. Então, foi trabalhar na Patri, onde, de fato, compreendeu a área de RIG e vislumbrou uma carreira para si.

Sua primeira atuação foi como assessora junto ao Poder Executivo. Da Patri, migrou para o mundo das empresas e atuou na área de RIG em companhias de diferentes setores como 3M, Cargill e Mars. Há três anos, é a gerente executiva de RIG da multinacional de alimentos Nestlé.

Mãe de dois filhos, Helga não mede esforços para realizar o melhor que pode, tanto em casa, quanto profissionalmente. E mesmo quando eles exigem mais ou quando ela dorme menos, Helga está pronta para dar a próximo passo.

Em entrevista ao blog Tudo é política, Helga Paula Franco compartilhou sua visão da área de RIG, falou sobre a importância do preparo para essa atuação e ainda relevou a sua motivação para seguir em frente, mesmo diante dos momentos difíceis, naturais a qualquer carreira, mas, em especial, na área de RIG.

“Ativar o círculo de confiança e entender que sou o melhor que posso ser, dentro das limitações que tenho, me ajuda a seguir em frente”, destacou.

Confira abaixo a entrevista completa com Helga Paula Franco.

Sua trajetória na área de RIG exigiu muito preparo, ou foi natural por ter sido criada nesse ambiente em que a política já era um tema de interesse comum?

Quase nada na carreira é natural. É muito suor. É claro que existem as oportunidades e as coincidências, mas eu acredito em dedicação, isso é o que te leva aonde você quer chegar. Sim, exigiu muita preparação, muita tentativa e erro, ouvir pessoas que eu admiro demais nesse setor, observar, entender como elas trabalhavam, compartilhar com os colegas apreensões, percepções, então esse diálogo que sempre mantive com as pessoas nas quais eu confio, me ajudou a chegar até aqui.

O que é preciso para ser um bom profissional na área de RIG?

O relacional é muito importante, mas o que vai te levar para um próximo passo é o elemento técnico. É a capacidade de um pensamento estratégico, de uma implementação impecável, de entender detalhes que são fora do universo de relações governamentais, então detalhes financeiros, das operações, que leva a conduzir um bom trabalho.

Se você está em uma indústria, é preciso entender da matéria-prima até o varejo, ou seja, ter um olhar amplo e ao mesmo tempo profundo do negócio. Isso vai fazer com que haja uma conexão com todos os departamentos e evitar que Relações Governamentais seja uma área separada da companhia, uma de assistência; não, nós somos parte do negócio.

Em algum momento em sua carreira você precisou convencer pessoas de que a área de RIG era importante dentro da empresa?

Há momentos de semear, e nosso planejamento precisa ser feito para isso. E existem outras companhias em que a área já exige um trabalho de profundidade, então depende do desafio que está à sua frente. Eu já vivenciei, por exemplo, desafios em que foi necessário criar uma área, contratar um time, iniciar processos. E também já tive experiências em que o grande desafio era fazer ajustes finos em determinadas áreas, adotar processos mais modernos, inserindo tecnologia na gestão geral da área, porque o processo já existia; e não só o processo, mas o mindset, o reconhecimento do papel desse profissional já existia.

Como convencê-los ou como se adaptar aos diferentes casos?

Nem todo mundo ama política, nem todo profissional que atua em uma grande companhia precisa saber dos detalhes, mas ele precisa entender o quanto essa área aporta no final do dia para que as coisas aconteçam da melhor forma possível. Então precisamos sentir o público para entender onde ele está posicionado e qual a sua visão. Desta forma conseguimos estabelecer um contato que faça sentido para ele. Isso é o que procuro fazer diariamente.

Então se a empresa está nessa fase inicial de uma conquista, de percepção de valores, o tom deve ser um; se a empresa está num timing mais fino, a condução é um pouco diferente. E, para saber qual caminho seguir, é importante perceber a tua audiência, se ela tem, por exemplo, mais interesse pela análise, ou se o interesse está no entendimento de timings e detalhes técnicos. Então, a partir dessa compreensão, é possível fazer esse ajuste de falas no ambiente de trabalho, o que ajuda muito a manter as pessoas próximas.

Então a atenção, na verdade, deve ser em si mesma, na sua forma de atuação?

Sim. Na verdade, é muito mais em como você se adequa para entregar da melhor forma. E foi assim que, ao longo do tempo, fui me adaptando. Então, em vez de querer mudar a percepção de uma área ou de profissionais, tento adaptar a minha forma de entregar a mensagem para que ela seja a melhor, sob o ponto de vista do meu receptor.

Fazemos o que fazemos, pelos nossos princípios, pelos nossos valores, porque queremos ser um profissional melhor no fim do dia, não é mesmo? E esse entendimento do público é o que está ao nosso alcance. De repente o head daquele setor não tem tanto interesse pela área política, não adiantaria eu me preparar para levar uma informação mais aprofundada para ele. Agora se tem um head que gosta mais do ambiente, eu trago um pouco mais de análise geral do governo federal ou de um estado específico e, assim, consigo entregar a mensagem de acordo com o que o aquele interlocutor entende ser benefício. Esse é o que eu considero o melhor caminho e ao qual fui me adaptando ao longo do tempo para praticar.

Você comentou que é preciso ter pensamento estratégico para atuar na área. É possível treinar para pensar assim?

Eu acredito que muito do que somos é resultado do nosso suor, da nossa dedicação mesmo. É preciso sentar, ler, discutir, aprender, participar de reuniões, de cursos; assistir sessões de planejamento estratégico de negócios, fiz muito isso, porque eu busco inspiração e acho que todos nós temos muito o que aprender. Todos os dias podemos aprender uma coisa nova.

E estar em grandes companhias, convivendo com profissionais fantásticos, abre possibilidades incríveis de aconselhamento e de discussões, até mesmo com profissionais que não são de RIG, mas que podem me ajudar a entender se aquela sequência de pensamentos faz sentido, se os timings que estou ajustando estão corretos, se minha linha de ação faz sentido, então tem que ir atrás mesmo. É preciso entender como as coisas funcionam, se equipar da melhor forma possível e buscar auxílio e inspiração nos profissionais de destaque, tem muita gente boa por aí.

Como você se informa no dia a dia, o que você lê?

E-mail e WhatsApp (risos). Como tenho dois filhos e o tempo para leitura acaba sendo mais escasso mesmo, tenho ouvido podcasts, de uma forma geral, já que eles nos permitem ficar informadas enquanto executamos alguma outra atividade. Por exemplo, às vezes estou fazendo compra de supermercado e estou com fone de ouvido. Aliás, esse é um desafio das mulheres, somos profissionais, mães e esposas tudo ao mesmo tempo. Então os podcasts nos auxiliam muito.

Tenho recebido muitos podcasts de análise política; e tem muitos grupos de WhatsApp que difundem informações que ajudam muito também, como, por exemplo, o RelGov por Elas, Mulheres em RelGov, Women Inside Trade, então, é muito legal esse compartilhamento mais sofisticado, porque recebemos informações mais direcionadas. E tenho lido muito do que é compartilhado, além, é claro, dos nossos sistemas gerais de monitoramento, de análise política, aos quais me atenho bastante, especialmente em relação às informações aqui da Nestlé. Sem contar que sempre que posso, puxo conversa com os colegas para trocar percepções; nos encontramos muito nas associações de classe, então conseguimos manter esse contato que nos ajuda e nos fortalece bastante.

Então a tecnologia faz toda diferença nessa atuação na área de RIG?

Totalmente. Dedicar menos horas a e-mails, por exemplo, já otimiza nosso tempo e nosso trabalho. Tudo o que pudermos fazer via sistema, organizando informações, dados, para ter esse conhecimento mais direcionado para tomar as decisões é o caminho presente e futuro, é onde minha cabeça está hoje.

Qual é o maior mito da área de RIG?

O maior mito é de que as coisas se resolvem fora do ambiente institucional.

O que você considera uma conquista na atuação profissional na área de RIG?

Para mim, sempre é uma conquista quando conseguimos apresentar um argumento ou construir uma linha de raciocínio que leve quem não estava disposto a ouvir a nos dar uma oportunidade. Essa é a grande conquista da nossa área. Quando trabalhamos de uma forma técnica, de uma forma transparente, em que quebramos um obstáculo de comunicação e abrimos uma linha de diálogo, é uma grande conquista.

Como foi receber a notícia de que está na lista dos 20 profissionais mais admirados do mercado brasileiro?

Fiquei muito agradecida. Tenho feito meu trabalho de uma forma discreta e com foco nessa questão do diálogo, eu atendo as pessoas que me procuram, eu mesma procuro as pessoas, então, para mim, foi uma grata surpresa, acompanhada de extrema gratidão por poder compartilhar aquele momento com feras. Pessoas como Antônio Marcos Umbelino Lobo, a quem admiro imensamente, o próprio Jack Corrêa, a Grazielle Parenti, que é uma querida, enfim, ali foi um momento de compartilhar com os grandes mestres. E também procurei receber essa indicação com muita humildade porque sei que minha jornada ainda tem muito pela frente.

Ao receber um destaque como esse na sua área, em especial representando o público feminino, você sente que está abrindo portas?

Espero que as pessoas vejam que é possível, mas entendam que é difícil. Equilibrar todos os pratos exige uma série de concessões. Eu sempre digo: não quero que minha vida seja “Instagramável”, quero que minha vida seja real e que as pessoas entendam que, muitas vezes, é uma realidade difícil. Tem que viajar bastante, são muitas horas de trabalho, muito cansaço, lidar com temas delicados, então, às vezes precisamos até de um certo isolamento, ficar no mundo da lua, sabe, para montar uma estratégia, tudo isso exige muito.

Mas é possível, especialmente, com incentivos profissionais e com a compreensão de uma pessoa bacana ao seu lado, entendendo que você será a melhor esposa que puder, a melhor mãe que puder, enfim, toda essa corrente de apoio faz com que a jornada seja menos pedregosa ou, ainda, que seja possível passar por cima desse pedregulho todo sem se machucar.

Acho que com essa rede de apoio, a jornada se torna mais suave, mais gostosa e conseguimos crescer e aproveitá-la da melhor forma possível. Fazer o melhor que podemos quando estamos no trabalho, e ao chegar em casa, fazer o melhor que podemos também. Não é fácil, mas é possível. Duas coisas são muito importantes nesse processo: ter a ciência de que você fará o melhor que pode e construir um círculo de confiança, de profissionais que admira, que te entendem e aos quais você possa recorrer para trocar uma ideia, às vezes, para aliviar uma frustração, ou seja, tudo isso te ajuda crescer. Esses ciclos são fundamentais para que possamos lembrar que, para além do CNPJ, somos um CPF, ou seja, somos seres humanos com sentimentos, emoções e com o conhecimento profissional, que estamos construindo dia a dia.


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